EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO DAS MÚLTIPLAS CRISES:

QUE MUNDO QUEREMOS?

 

Esta carta é para todos e todas que compartilham conosco do desejo e da necessidade de pensar o mundo que queremos.

 

No frio do inverno de nossa cidade, Rio Grande, sentimos a necessidade de reaquecer nossas relações, distanciadas pelo isolamento e afastamento sociais, provocados pela pandemia da COVID 19. Imaginamos que, assim como nós, estudantes do Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental – PPGEA, vocês também sentem a necessidade de compartilhar, abraçar, festejar. Falamos de necessidade porque entendemos o quanto o convívio social é importante para nós, humanos, que nos construímos nas relações, no afeto, no diálogo, na luta.

Esses sentires nos desacomodaram, movimentaram-nos e provocaram a pensarmos as possibilidades do encontro. E decidimos que sim! Este ano tem Encontro e Diálogos com a Educação Ambiental – EDEA! Não teremos o calor dos abraços, mas teremos a acolhida dos sorrisos e, ainda que distantes, estaremos próximos fazendo algo que gostamos: dialogando sobre a Educação Ambiental – EA. Este ano o XII EDEA traz em sua chamada o tema

“Educação Ambiental no contexto das múltiplas crises: que mundo queremos? ”

Cientes de que os seres humanos são corresponsáveis, juntamente com a natureza pelo destino da Gaia e, consequentemente, pelas expressões da questão socioambiental, o mundo que queremos pode estar atrelado à necessidade de repensarmos novas concepções de cidadania, de ser e estar no universo através da conscientização emancipatória e libertadora.

Preocupando-nos com a crise de sentido que permeia toda a dimensão planetária, acreditamos que a EA pode nos convidar ao cuidado com o meio ambiente, assim como com o ser humano de forma integral e com as demais manifestações de vida.

Na medida em que as contradições de classes se aprofundam e a desigual apropriação no acesso e no uso dos bens comuns se desdobram, naturalmente, em crescentes conflitos socioambientais, novas formas de resistência vão emergindo nas esferas sociais, políticas e institucionais. Se na margem antagônica a resposta vem carregada de novos problemas, como austeridade, desapropriação e violências de toda sorte e natureza, nesta outra margem, onde se encontram as resistências, sempre em construção, há braços, mãos, mentes e corações trabalhando incansavelmente pela via da esperança, da justiça ambiental, da utopia, do bem viver: é através do sonho ligado à prática e do pensar aliado ao sentir que devemos responder aos graves problemas que emergem, da cidade ao campo, das águas a terra, dominadas, mas nem sempre determinadas, pela lógica de acumulação infinita do capital.

A expressão “mundo pandêmico” se apresenta como forma de explicitar um contexto que se estabelece em uma realidade forjada pela propagação de um vírus. Um mundo que se anunciava pelas constantes investidas contra o ambiente, em nome do desenvolvimento e que apresenta grandes desafios para a humanidade, que vive à sombra do medo, na incerteza do presente, das culpas do passado e vazia quanto ao futuro.

O mundo pandêmico alterou o modo de estar, mas nos perguntamos se alterará os modos de ser no mundo, ao mesmo tempo em que nos ocupa pensar que o “novo normal” pode ser uma nova ilusão, onde os modos de operar o controle e a opressão estejam ainda mais disfarçados pelos discursos e pela cegueira coletiva. Referimo-nos aos modos de ser-estar no mundo que foram elaborados por décadas para atender a um ideal de sociedade, que vislumbra nos objetos técnicos, a salvação para seus males, como ocorre com a expectativa pela espera de uma vacina que promete nos tornar imunes à ameaça da COVID 19.

De uma abordagem mágico-religiosa ao modelo biomédico, as concepções e práticas em torno da saúde e da doença passam por referências ao sobrenatural, compreensões filosóficas e equilíbrio entre os humores, para se constituir como prática hegemônica dos chamados profissionais da saúde, o que nos orienta a pensar em saúde como sendo um estado em contraposição à doença.

Da mesma maneira, a EA transita em sua abordagem e em seus paradigmas, inicialmente, exclusivamente conservacionista, para se constituir ao longo de quatro décadas – se considerarmos o marco da Conferência de Tbilisi – em um campo multidisciplinar, heterogêneo, dialógico e contra hegemônico.

Vivemos uma crise, mas há muito tempo viemos enfrentando crises das mais diversas facetas, decorrentes de desequilíbrios ecológicos, econômicos, políticos e culturais. Tal crise socioambiental pode ser compreendida como uma crise de percepção, e resultante de um sistema de valores e ações que levaram a um gradativo afastamento do ser humano do restante da natureza.

A perda desse sentimento de conexão, de pertencimento com os ambientes nos quais estamos, tem levado a uma perda de conexão também com todos os demais seres, humanos e não humanos. Ailton Krenak, intelectual indígena e ambientalista, alerta que esta ideia de humanidade como algo separado da natureza está na origem do colapso socioambiental que presenciamos. Ao perder a percepção de interdependência e de pertencimento, perdemos o senso de urgência e comprometimento com a saúde do planeta.

Convidamos você, para de onde você estiver, integrar-se neste movimento conosco, participando com seus trabalhos – sejam eles relatos de experiência, resultados de pesquisa – ou acompanhando apresentações, rodas de conversa, oficinas. Convidamos você para momentos de fruição nas atividades culturais, nas trocas e nas partilhas.

Nesta XII edição do EDEA, os Grupos de Trabalho que dão nomes aos espaços de diálogo a que se propõe o evento desde sua primeira edição, procuram o horizonte da questão que se materializa e se fortalece nestes tempos ditos pandêmicos: que mundo queremos?

 

Até breve, na esperança de um mundo onde possamos fazer da admiração nossa morada.